Brasil

05/10/2018 05:43 OLHAR DIRETO

Após incêndio, patrimônio de MT do Museu Nacional é irrecuperável, diz pesquisador

“Dados da expedição Rondon, dados de grupos indígenas dessas regiões do Cerrado que foram destruídas pelo agronegócio - que é o que está roendo este continente - não dá pra recuperar. Então quando vem uma pessoa e diz: ‘Ah, vamos recuperar e montar de novo...’ Não vai fazer, porque não existem aquelas pessoas, não existem mais aqueles povos, não existem aquelas aldeias. Você vai chegar lá e encontrar só soja pra China. Essa é a grande verdade”. A afirmação é do biólogo Luiz Flamarion, que estuda no Pantanal mato-grossense desde 1999 e é pesquisador pelo Museu Nacional, destruído por um incêndio há um mês e um dia.

Flamarion conta que estava em casa no último dia 2 de setembro, quando recebeu a ligação de uma pessoa perguntando o que estava acontecendo com o Museu Nacional. Ele ainda não sabia, mas em pouco tempo começou a receber diversas fotos do incêndio, que considera resultado de anos de descaso político.
Museu Nacional em chamas (Foto: Reprodução)
O biólogo, que é graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1981), tem mestrado em Ecologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1985) e doutorado em Biogeografia - Universität des Saarlandes (1990), conta que se considera um sobrevivente do incêndio, já que seus arquivos haviam sido transportados para outro prédio pouco tempo antes, junto com a botânica, o departamento de invertebrados, a biblioteca e uma parte da arqueologia.
Para Mato Grosso, segundo o pesquisador, a grande perda foi em relação aos dados sobre povos indígenas que não existem mais. “Coisas antigas, dados da época de Rondon. Você acha que vai chegar numa área que o Rondon passou no início do século e vai coletar dados de novo? Não tem nada. Tem colheitadeira e trator. Uma tragédia”.
E uma tragédia anunciada. “Não tem como recuperar mais isso, se foi. Nós jogamos nossa historia no lixo, essa é a verdade. Porque a função do museu é armazenar informação e história. [Houve] descaso principalmente dos políticos, e em grande parte, não por culpa direta, mas indireta, da população, que não tem noção dessas coisas, e que seleciona políticos desinteressados, que estão mais interessados em suas picuinhas”.
O pesquisador conta que o Museu Nacional, seu berço de trabalho, era muito mais do que um local somente de armazenamento de informações. Como local de pesquisa, tinha quase cem pesquisadores, seis cursos de pós-graduação, e em torno de 500 estudantes. Luiz e outros colegas que haviam se transferido para o outro prédio tiveram ‘sorte’. “(...) só que temos companheiros que perderam até suas cadeiras pra sentar, perderam seus computadores, suas coleções, seus projetos... pessoas que montaram planos de vida, planos de tese, em cima de um material que se transformou em cinzas”, lamenta.
A pesquisa no Pantanal
Com experiência em biogeografia, zoologia, e ênfase em mastozoologia, o professor Luiz tem uma relação antiga com o Pantanal mato-grossense. Desde 1999, no entanto, trabalha especificamente estudando a mudança de paisagem da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) do Sesc Pantanal, uma área de cerca de 108 mil hectares (igual à cidade do Rio de Janeiro) que foi adquirida pela organização pouco após a Eco 92. Antes de ser Sesc, a área era ocupada por 25 fazendas de gado inoperantes, e o objetivo principal da reserva era, além da recuperação do local, a instalação de pesquisas científicas sobre o bioma.

“Nosso projeto principal é aqui na região porque a gente conheceu o Sesc e foi convidado pelo Doutor Leopoldo Brandão pra vir pra cá. A primeira vez que eu vim foi em setembro de 1999, e a gente começou a mapear a região e começamos a avaliar principalmente tamanho da população de várias espécies. E a gente vai integrando essa informação, a evolução da paisagem e densidade, frequência de ocorrência de fauna, e agora, mais recentemente, em relação a tudo aquilo que interesse pra onça pintada. Agora a gente pensa na onça, mas sem esquecer o resto”, explica o pesquisador.
Segundo ele, muitas mudanças foram observadas nestes quase vinte anos de pesquisa, em várias etapas. “Tem muitas áreas que eram pressionadas pelo uso da terra pelo gado, pelas pessoas, pelo fogo... quando a gente chegou nestes campos a vegetação era baixinha, e começou um processo de evolução. Houve zonas imensas que as florestas colonizaram. Cambará expandiu, acorizal... essas árvores tinha lugares que era muito raro [encontrar], só tinha [as mais] jovens e nas fezes das antas. Hoje você vai lá e caminha na sombra. E houve muitos rearranjos das espécies. Primeiro a gente chegava na zona central, núcleo, que é uma área grande com aspecto de cerrado, e pra conseguir achar queixada, catitu, era mais difícil. O que aconteceu foi que as forças que direcionavam o uso do espaço por esses bichos enfraqueceram e as condições voltaram”.
Câmeras 'escondidas' no meio da mata para capturar imagens de animais (Foto: Rogério Florentino / Olhar Direto)
O objetivo, segundo o pesquisador, é principalmente deixar dados para que os futuros pesquisadores possam fazer comparativos. Por este motivo, ele sempre vem para o Mato Grosso, fica por cerca de um mês, e volta. Outros pesquisadores, de outras universidades, incluindo estudantes, também integram o grupo. “A gente não tem o dado anterior. O que a gente tem de dado anterior, é porque a gente está trabalhando com imagens de satélite também, então a gente está cruzando essas informações desde 1986, na época que a gente não estava aqui. Entendendo como os bichos se comportam hoje, a gente está puxando pro passado. Mas hoje sim... ao longo do tempo a gente via um rastro de uma onça aqui, outro rastro lá, andava dias e não via nada. Agora teve outro dia que a gente saiu e viu cinco”, declara. “Na etapa anterior, que a gente fez [mapeamento], e estava entre 18 a 22 pintadas, mas não foi uma avaliação pra onça pintada, a gente estava fazendo outras coisas. Quando a onça aparecia na nossa amostragem, que é uma amostragem que tem, depois, um tratamento matemático, o que a gente está fazendo é que, se daqui a 20, 30, 50 anos alguém quiser repetir, ele vai ter dados numéricos, uma metodologia muito detalhada, pra poder comparar formalmente, e não só com opinião”, finaliza.

Luiz Flamarion é pesquisador do Museu Nacional e está no Pantanal


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