A Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat) manifestou preocupação com o atual cenário da pecuária de corte no estado. Em vídeo divulgado pelas redes sociais da entidade, o presidente Luís Fernando Amado Conte, o Nando Conte, chama atenção para o rápido alongamento das escalas de abate e para o aumento da diferença entre os preços pagos pelo boi gordo em Mato Grosso e em São Paulo.
A manifestação tem repercussão direta em Juara e no Vale do Arinos, uma das regiões mais dependentes economicamente da pecuária bovina. A reportagem da Rádio Tucunaré e site Acesse Notícias apurou que Juara ocupa atualmente a terceira posição entre os municípios com maior rebanho bovino de Mato Grosso, atrás apenas de Cáceres e Vila Bela da Santíssima Trindade.
O município possui aproximadamente 890 mil bovinos, o que coloca qualquer alteração no mercado pecuário entre os assuntos de maior impacto para a economia local.
No vídeo, Nando Conte afirma que a Acrimat acompanha “com grande preocupação” o alongamento das escalas de abate no estado e também a diferença de preços entre Mato Grosso e São Paulo.
Os números disponíveis ajudam a dimensionar essa diferença. Em 25 de setembro, o IMEA apontava preço médio de R$ 325,72 por arroba do boi gordo à vista em Mato Grosso, enquanto o indicador Cepea/Esalq para São Paulo estava próximo de R$ 358,80 por arroba. Em Juara, a referência naquele mesmo período estava em torno de R$ 325,88 por arroba.
Isso representa uma diferença superior a R$ 30 por arroba em algumas referências de mercado, situação que aumenta a preocupação de pecuaristas mato-grossenses, principalmente em regiões mais distantes dos grandes centros consumidores e com menor número de plantas frigoríficas disponíveis para negociação.
China e União Europeia reduzem alternativas
Outro ponto destacado pelo presidente da Acrimat é a perda de alternativas no mercado externo.
A China, principal compradora da carne bovina brasileira e mato-grossense, estabeleceu uma cota anual para importações, com previsão de tarifa adicional de 55% sobre os volumes que ultrapassarem o limite definido. Para o Brasil, a cota estabelecida foi de aproximadamente 1,106 milhão de toneladas.
Nos meses seguintes, o avanço das exportações aproximou o Brasil desse limite e passou a gerar preocupação no setor quanto à competitividade das vendas adicionais ao mercado chinês.
Paralelamente, desde 3 de setembro, as exportações brasileiras de carne bovina para a União Europeia estão suspensas em razão de exigências sanitárias e de rastreabilidade estabelecidas pelo bloco.
Embora a União Europeia não seja o maior comprador em volume da carne produzida em Mato Grosso, é um mercado considerado estratégico por pagar valores superiores.
Entre janeiro e julho deste ano, a União Europeia comprou aproximadamente 20,37 mil toneladas equivalente-carcaça de carne bovina de Mato Grosso, respondendo por 3,43% do volume exportado pelo estado.
O preço médio pago pelo bloco europeu ficou em aproximadamente US$ 6.407 por tonelada, cerca de 34,7% acima dos aproximadamente US$ 4.756 pagos pela China.
Na avaliação apresentada por Nando Conte, a combinação desses fatores reduz as opções disponíveis aos pecuaristas justamente em um momento de alongamento das escalas de abate.
Acrimat pede redução do ICMS
Diante desse cenário, a Acrimat informou que está apresentando ao Governo de Mato Grosso um pedido de redução do ICMS nas operações interestaduais de bovinos.
Segundo Nando Conte, a intenção é abrir, com urgência, novas possibilidades de comercialização para produtores que encontram dificuldades para vender os animais dentro do próprio estado.
Na prática, uma eventual redução tributária poderia facilitar a saída de gado de Mato Grosso para frigoríficos instalados em outros estados, aumentando o número de compradores disponíveis e ampliando a concorrência pela matéria-prima.
Nando Conte argumenta que a medida poderia proporcionar maior liquidez às negociações e beneficiar principalmente regiões produtoras que hoje possuem menos alternativas de venda.
Juara sente o problema de forma ainda mais próxima
Em Juara, a discussão ganha dimensão especial.
Com aproximadamente 890,5 mil cabeças, o município integra, juntamente com Cáceres e Vila Bela da Santíssima Trindade, o grupo dos três maiores rebanhos bovinos de Mato Grosso.
Além dos produtores rurais, toda uma cadeia econômica depende da atividade: transportadores, leiloeiras, casas agropecuárias, prestadores de serviços, comércio, trabalhadores rurais e outros segmentos ligados direta ou indiretamente à criação de gado.
Por isso, uma redução prolongada na capacidade de negociação do pecuarista pode produzir reflexos muito além das propriedades rurais.
O momento também evidencia uma característica histórica do mercado mato-grossense: embora o estado seja o maior produtor de bovinos do país, a distância dos grandes centros consumidores e a concentração da indústria frigorífica podem provocar diferenças importantes entre as cotações praticadas em Mato Grosso e em outros estados.
A manifestação da Acrimat coloca novamente em debate a necessidade de ampliar as alternativas de comercialização do gado mato-grossense e aumentar a concorrência pela compra dos animais, especialmente em regiões altamente dependentes da pecuária, como Juara e o Vale do Arinos.

























































