Durante entrevista à Rádio Tucunaré, médico Dr. Haroldo Hatanaka e enfermeira Aline Gislaine explicaram os riscos da doença, os sintomas que merecem atenção e como funciona o diagnóstico e tratamento gratuito oferecido pela rede municipal de saúde.
A hanseníase, doença infecciosa que pode permanecer silenciosa durante anos e provocar danos permanentes aos nervos, foi o principal assunto do programa institucional da Prefeitura de Juara, Pingos nos Is, transmitido ao vivo nesta quarta-feira, 28 de outubro, ao meio-dia, pela Rádio Tucunaré 89,3 FM.
Conduzida pelo apresentador Cido, a entrevista contou com a participação do médico Dr. Haroldo Hatanaka e da enfermeira Aline Gislaine, profissionais que atuam no enfrentamento da hanseníase no município.
Durante a conversa, os especialistas fizeram um alerta: a doença continua presente na população, mas muitos casos podem passar despercebidos durante anos, dificultando o diagnóstico e aumentando o risco de sequelas.
Doença pode levar de três a cinco anos para apresentar os primeiros sintomas
Segundo o Dr. Haroldo Hatanaka, uma das principais dificuldades no combate à hanseníase está justamente na evolução lenta da enfermidade.
Diferentemente de infecções que apresentam sintomas poucos dias após o contágio, a hanseníase pode levar, em média, de três a cinco anos para começar a manifestar sinais perceptíveis.
O médico explicou que a resposta imunológica varia de pessoa para pessoa. Enquanto a maioria consegue combater naturalmente a bactéria, uma parcela da população apresenta maior suscetibilidade ao desenvolvimento da doença.
O grande perigo está no comprometimento dos nervos periféricos, que pode provocar perda de sensibilidade, dores, limitações físicas e, nos casos mais graves, incapacidades permanentes.
Quanto mais cedo a doença for identificada, menores serão os riscos de complicações.
Formigamento, dormência e alterações na pele são sinais de alerta
Durante a entrevista, o médico explicou que os primeiros sintomas nem sempre são facilmente reconhecidos, pois podem ser confundidos com problemas de circulação, alterações neurológicas e outras condições de saúde.
Entre os sinais que merecem atenção estão:
- Formigamento nas mãos e nos pés;
- Dormência ou diminuição da sensibilidade;
- Sensação de fisgadas ou pinicações;
- Dores nos nervos;
- Áreas ressecadas ou manchas na pele com alteração de sensibilidade;
- Perda progressiva de força ou sensibilidade em determinadas regiões do corpo.
O especialista alertou que nem sempre a hanseníase começa com manchas evidentes na pele. Em alguns pacientes, as primeiras manifestações são alterações discretas nos nervos.
Por isso, pessoas com sintomas persistentes devem procurar uma unidade de saúde para avaliação.
Como ocorre a transmissão?
O Dr. Haroldo explicou que a hanseníase é transmitida principalmente pelas vias respiratórias, mas não se espalha com a mesma facilidade de doenças como gripe ou Covid-19.
A transmissão está associada, especialmente, à convivência próxima, frequente e prolongada com uma pessoa que apresenta a doença em sua forma transmissível e ainda não iniciou tratamento adequado.
Familiares que convivem na mesma residência e pessoas que compartilham ambientes fechados por longos períodos merecem atenção especial.
O médico também destacou que fatores relacionados à resposta imunológica individual influenciam o risco de adoecimento.
Diagnóstico precoce é prioridade em Juara
A enfermeira Aline Gislaine explicou que a Secretaria Municipal de Saúde vem intensificando, desde o início do ano, as orientações e capacitações das equipes das unidades de saúde.
O trabalho envolve médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e agentes comunitários de saúde, além da colaboração de ortopedistas, que também têm identificado sinais suspeitos e encaminhado pacientes para avaliação.
A proposta é ampliar a identificação de possíveis casos antes que ocorram comprometimentos mais graves.
Uma das novidades apresentadas na entrevista é a utilização de um questionário com 14 perguntas para ajudar na identificação de pessoas com sintomas sugestivos de hanseníase.
O instrumento, mencionado pelos profissionais como QSH, foi desenvolvido com participação de pesquisadores ligados à Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto.
As perguntas abordam sintomas como dormência, formigamento e dores nos nervos.
De acordo com os entrevistados, o questionário poderá ser utilizado pelos agentes comunitários de saúde durante visitas domiciliares, permitindo selecionar pessoas que necessitam de avaliação médica mais detalhada.
O médico citou como exemplo o município de Novo Horizonte do Norte, onde, segundo informações repassadas à equipe, foram distribuídos mais de 2.200 questionários.
O questionário não estabelece o diagnóstico, mas funciona como uma ferramenta para identificar possíveis casos e direcionar os atendimentos.
Onde procurar atendimento em Juara?
A enfermeira explicou que o primeiro passo para qualquer morador com suspeita de hanseníase é procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) de referência de seu bairro.
O paciente passa inicialmente por uma avaliação da equipe da unidade.
Como o diagnóstico exige exames clínicos específicos, incluindo testes de sensibilidade, força muscular e avaliação neurológica e dermatológica, a Secretaria Municipal de Saúde organizou períodos mensais destinados à avaliação de pacientes suspeitos.
Cada unidade possui um dia reservado dentro do mês para esse atendimento especializado.
Confirmado o diagnóstico, o tratamento é iniciado e acompanhado pela própria rede municipal.
Nos casos que apresentam complicações, reações à medicação ou necessidade de acompanhamento especializado, o paciente é encaminhado à equipe de referência.
Tratamento é gratuito pelo SUS, mas abandono preocupa profissionais
Aline informou que os medicamentos utilizados no tratamento da hanseníase são fornecidos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
O tratamento utiliza uma combinação de medicamentos conhecida como poliquimioterapia.
Durante a entrevista, a enfermeira explicou que o paciente recebe mensalmente a cartela de medicamentos e precisa comparecer à unidade de saúde para uma dose supervisionada, mantendo o uso diário da medicação conforme a prescrição.
O Dr. Haroldo reconheceu que uma das dificuldades enfrentadas pelas equipes é garantir que os pacientes concluam todas as etapas do tratamento.
Entre as situações mencionadas estão dificuldades de deslocamento, condições das estradas, trabalho em regiões distantes e impedimentos relacionados à rotina profissional.
O abandono do tratamento representa um risco tanto para a saúde do paciente quanto para o controle da transmissão da doença.
O médico também esclareceu que, mesmo após a eliminação das bactérias pelo tratamento, podem ocorrer reações inflamatórias que exigem acompanhamento médico.
Isso acontece porque o organismo pode continuar reagindo aos componentes das bactérias já eliminadas, provocando inflamações e possíveis danos aos nervos.
Familiares precisam ser acompanhados por cinco anos
Outro ponto importante abordado pelos especialistas foi o acompanhamento das pessoas que convivem com pacientes diagnosticados.
Segundo o médico, a orientação adotada pelas equipes é realizar avaliações periódicas dos contatos familiares durante cinco anos.
A finalidade é identificar precocemente possíveis manifestações da doença.
O acompanhamento é especialmente importante porque a hanseníase apresenta um longo período de incubação, e uma pessoa exposta pode não desenvolver sintomas imediatamente.
Equipe multidisciplinar também oferece apoio psicológico e fisioterapia
A enfermeira Aline Gislaine destacou que o atendimento de referência no município conta com profissionais de diferentes especialidades.
Além do Dr. Haroldo e da equipe de enfermagem, composta por Aline e pela técnica Maria, o serviço dispõe de apoio psicológico e fisioterapêutico.
A fisioterapia tem papel importante na avaliação de possíveis incapacidades e na prevenção de limitações físicas provocadas pelo comprometimento dos nervos.
Aline também anunciou a existência de um grupo de autocuidado destinado aos pacientes com hanseníase e seus familiares.
A iniciativa busca oferecer acolhimento, compartilhar informações e orientar os participantes sobre tratamento, alimentação, direitos, exercícios físicos e prevenção de complicações.
O Dr. Haroldo explicou que pacientes com perda de sensibilidade precisam aprender cuidados específicos com mãos, pés e olhos, pois podem sofrer ferimentos sem perceber.
Brasil está entre os países com maior número de casos
Durante a entrevista, o médico lembrou que o Brasil ocupou a segunda posição mundial em registros de novos casos de hanseníase em 2024, atrás apenas da Índia.
Ele ressaltou que a doença ainda representa um desafio significativo para a saúde pública brasileira, especialmente em regiões onde existe dificuldade para identificar os primeiros sintomas.
O especialista também chamou atenção para a chamada endemia oculta, expressão utilizada para descrever a existência de casos que permanecem sem diagnóstico na população.
Nesse contexto, ele destacou que ampliar a identificação de pacientes não significa necessariamente que a doença esteja aumentando, mas pode demonstrar maior capacidade dos serviços de saúde para encontrar casos anteriormente desconhecidos.
Informação e diagnóstico precoce podem evitar sequelas
A reportagem da Rádio Tucunaré e do site Acesse Notícias apurou, a partir das informações apresentadas durante a entrevista, que a principal estratégia adotada pelas equipes de saúde de Juara envolve capacitação profissional, busca ativa de possíveis pacientes, acompanhamento dos familiares e ampliação do acesso ao diagnóstico.
Os entrevistados reforçaram que a hanseníase tem tratamento e cura, mas exige atenção aos primeiros sintomas e continuidade do acompanhamento médico.
A principal orientação à população é não ignorar dormências, formigamentos persistentes ou alterações de sensibilidade na pele.
Ao perceber qualquer um desses sinais, o morador deve procurar a Unidade Básica de Saúde mais próxima para avaliação.
A entrevista foi transmitida no programa Pingos nos Is, espaço institucional da Prefeitura de Juara apresentado às quartas-feiras, ao meio-dia, pela Rádio Tucunaré 89,3 FM.
























































